15 de maio de 2026 · Gustavo Furniel

Como fazer revisão sistemática — passo a passo para pós-graduandos brasileiros

Protocolo, busca, triagem, extração, síntese e relato — o que a banca espera ver e onde fica fácil errar.

#revisao-sistematica · #metodologia · #pos-graduacao

Revisão sistemática (RS) é o tipo de revisão de literatura que declara o protocolo antes da execução, é reproduzível, e exige que cada decisão de inclusão ou exclusão seja justificável. É o padrão que bancas técnicas (saúde, engenharia, ciências sociais aplicadas) esperam quando o objetivo é "mapear o estado da arte" ou "responder uma pergunta específica com base na literatura disponível".

Este post cobre o passo a passo: o que você precisa decidir antes, como executar, o que documentar para que a banca não devolva, e onde estudantes brasileiros costumam tropeçar.

Antes de começar: você precisa mesmo de revisão sistemática?

Revisão sistemática é trabalhosa. O esforço médio para uma RS razoável é de 6-12 meses, mesmo com ferramentas. Pergunte-se:

  • Sua pergunta é específica o suficiente? "Como redes neurais convolucionais (CNN) impactam a sensibilidade da detecção precoce de câncer de mama em mamografia digital de mulheres acima de 50 anos no Brasil entre 2018 e 2024" é uma pergunta de RS. "Como IA afeta a medicina" não é — é tema de uma revisão narrativa.
  • A literatura existente justifica? Se sua área tem 12 papers publicados sobre o tema exato, RS é desproporcional. Use revisão narrativa ou meta-síntese qualitativa.
  • Sua banca exige? Algumas bancas exigem RS explicitamente para mestrados em saúde e engenharias. Outras aceitam revisão narrativa bem feita. Confirme antes.

Se a resposta for sim, segue o passo a passo.

Passo 1 — Protocolo (antes de qualquer busca)

O protocolo é o documento que declara o que você vai fazer antes de fazer. Em RS séria, ele é registrado em base pública (PROSPERO, OSF) para que ninguém possa acusar você de mudar critérios depois.

Conteúdo mínimo:

  • Pergunta de pesquisa estruturada (PICO em saúde; PICOC em ciências sociais; PEO para qualitativa).
  • Critérios de inclusão e exclusão explícitos. Inclusão: tipo de estudo, faixa temporal, idioma, população. Exclusão: livros, opiniões, papers retratados, duplicatas.
  • Bases consultadas com justificativa. Não basta "Google Scholar" — bancos como Web of Science, Scopus, PubMed, Periódicos CAPES (para BR), SciELO (para PT-BR), Embase (saúde) cobrem coisas diferentes.
  • Estratégia de busca (string de busca por base, operadores booleanos, filtros aplicados).
  • Critérios de qualidade dos estudos incluídos (escalas tipo Newcastle-Ottawa para coorte, JBI para qualitativa).
  • Como serão extraídos os dados (template de extração).
  • Como será feita a síntese (meta-análise estatística? síntese narrativa? meta-etnografia?).

Para o método-mãe brasileiro em saúde, a referência é o Manual Cochrane (tradução pela Cochrane Iberoamericana). Para humanidades sociais aplicadas, Kitchenham (engenharia de software) e Joanna Briggs (enfermagem) são referências mais comuns.

Passo 2 — Busca

Aqui o trabalho começa de verdade. Cada base tem sua sintaxe — não dá pra colar a mesma string em Web of Science e PubMed e esperar resultado equivalente.

Boas práticas:

  • Use operadores booleanos consistentes (AND, OR, NOT). Cada base tem variações; teste pequeno antes de rodar com escopo total.
  • Use truncamento (mammograph* pega mammography, mammographic, mammograms). Mas atenção: bases tratam truncamento diferente.
  • Registre cada busca com data, base, string usada, número de resultados. Banca pode pedir e auditoria interna exige.
  • Exporte tudo em formato comum (RIS, BibTeX, CSV). Importar para gestor de referência (Zotero, Mendeley, RefWorks).
  • Cobertura PT-BR: papers brasileiros muitas vezes não aparecem em bases internacionais. Inclua SciELO e o portal de Periódicos CAPES no protocolo.

Atalho útil: a busca do sumno integra OpenAlex (250M+ papers) com filtro por idioma PT-BR. Use a busca com a pergunta de pesquisa preenchida para deixar o sumno re-ordenar resultados por aderência ao seu método.

Passo 3 — Triagem (duas fases)

A triagem clássica tem dois momentos:

Triagem 1 — título e abstract. Você lê apenas título + resumo de cada paper retornado pela busca. Decisão binária: incluir ou excluir. Aqui é onde o volume é maior (500-5000 papers em RS comuns). Boas práticas:

  • Dois revisores independentes, com Kappa de Cohen (κ ≥ 0,6) para concordância. Em mestrado solo, declare a limitação ("triagem por um único revisor com auditoria do orientador").
  • Use software: Rayyan (gratuito, foi feito pra isso) ou Covidence (pago).
  • Documente exclusões em segundo nível: papers excluídos na triagem 1 não precisam de justificativa individual. Excluídos na triagem 2 sim.

Triagem 2 — leitura do texto completo. Você lê o PDF inteiro e decide. Aqui sobram normalmente 30-150 papers. Cada exclusão precisa de justificativa: "população não bate", "método incompatível", "fora do recorte temporal".

Passo 4 — Extração de dados

Você cria uma planilha (Excel, Google Sheets ou template do software de revisão) com colunas pré-declaradas no protocolo. Exemplo para meta-análise de intervenção:

Paper | Ano | País | População (n) | Intervenção | Comparação | Outcome primário | Outcome secundário | Risco de viés

Não invente colunas durante a extração. Se faltar algo, atualize o protocolo formalmente.

A extração é chata e demorada. Reserve 30 minutos por paper na primeira passada, 10 minutos para revisão de qualidade.

Passo 5 — Avaliação de qualidade

Cada estudo incluído precisa ser avaliado em risco de viés. Escalas comuns:

  • Cochrane RoB 2 (clinical trials)
  • Newcastle-Ottawa (coorte/caso-controle)
  • JBI Critical Appraisal Tools (vários desenhos, popular em enfermagem)
  • AMSTAR-2 (revisões sistemáticas — se você está fazendo "revisão de revisões")

Resultado vira tabela de "risco de viés baixo/moderado/alto" por estudo, mostrada na RS.

Passo 6 — Síntese

Duas escolas:

Síntese estatística (meta-análise). Combina resultados quantitativos. Exige: medidas comparáveis (mesma unidade), heterogeneidade aceitável (I² < 50% é o ideal), software (Review Manager 5.4, R com metafor, Stata com metan).

Síntese narrativa. Combina resultados qualitativamente. Tabula achados, identifica padrões, discute consensos e disputas. É a opção quando meta-análise não é viável.

Síntese narrativa não é menos rigorosa — é mais demandante de juízo qualificado. Banca de boa qualidade reconhece. Banca medíocre pede meta-análise mesmo sem dados que comportem.

Passo 7 — Relato (PRISMA)

A norma de relato de RS é o PRISMA 2020 (prisma-statement.org). É um checklist de 27 itens que sua dissertação precisa cobrir:

  • Pergunta de pesquisa estruturada
  • Critérios de inclusão/exclusão
  • Bases e datas de busca
  • Estratégia de busca completa (em apêndice)
  • Diagrama de fluxo PRISMA (Figura 1 obrigatória)
  • Tabela de estudos incluídos
  • Avaliação de risco de viés
  • Síntese de resultados
  • Limitações
  • Conclusões

Banca técnica olha o PRISMA antes do conteúdo. Se o diagrama de fluxo está faltando, é devolução automática.

Onde os pós-graduandos brasileiros mais tropeçam

Acompanhando bancas de mestrado e doutorado brasileiras, os erros recorrentes são:

  1. Pergunta de pesquisa vaga. "Estudar IA na educação" não é pergunta de RS. Estruture com PICO/PICOC antes.
  2. Protocolo escrito depois da execução. Quase ninguém registra no PROSPERO/OSF antes da busca. Faça pelo menos uma versão datada no Google Drive — datas honestas valem mais que registro público inventado.
  3. Cobertura PT-BR insuficiente. Limitar busca a Web of Science perde literatura brasileira inteira. Inclua SciELO e CAPES.
  4. Triagem 1 sem dois revisores. Mestrado solo pode declarar como limitação, mas você precisa declarar. Não esconda.
  5. Avaliação de qualidade ausente. A banca pede a tabela de risco de viés, e ela aparece como "n/a" ou simplesmente não aparece.
  6. Meta-análise forçada. Tentar combinar estudos com medidas incompatíveis. Síntese narrativa é uma escolha válida e às vezes obrigatória.
  7. Relato sem PRISMA. Diagrama de fluxo ausente é o erro mais visível.

Onde o sumno entra no fluxo

O sumno não substitui Cochrane, Rayyan ou seu orientador. O que ele acelera:

  • Busca em OpenAlex com filtro PT-BR e re-ranking dirigido à sua pergunta de pesquisa (na busca, preencha o campo "Pergunta de pesquisa" para que o sistema avalie cada resultado em três dimensões: tema, método e contraste).
  • Sumarização rápida de abstracts em PT-BR durante a triagem 1, com citação rastreável até o trecho do abstract original.
  • Exportação BibTeX já formatada conforme ABNT NBR 6023 para colar no LaTeX/Word.
  • Verificador de ABNT para passar a bibliografia final antes da entrega (/abnt).

Para o resto — protocolo, extração, avaliação de qualidade, síntese estatística — use ferramentas dedicadas. RS leva tempo. Não há atalho real para o protocolo e o pensamento crítico.